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Política - Internacional

 

Quinta-feira, 07 de Janeiro de 2021

O passo a passo da maior crise política dos EUA dos últimos cem anos

Chad Kulchesky com sua bandeira de Trump estilizado como Rambo:
Chad Kulchesky com sua bandeira de Trump estilizado como Rambo:
Por Maria Sanches


Nas primeiras horas da manhã fria de 6 de janeiro, o clima em torno do Congresso americano era amistoso. Por volta das 9h, senhoras ensaiavam passinhos ao som de Macho Man, do Village People, uma mulher distribuía adesivos e um menino lia quadrinhos sentado na grama enquanto a mãe, com camiseta de Donald Trump, gritava palavras de ordem como "Mais quatro anos" e "Parem a roubalheira".



"Há 1 milhão de pessoas em frente ao Monumento Washington", exagerou uma mulher loira de boné vermelho com o slogan trumpista Make America Great Again (Faça a América Grande De Novo), ao indicar o caminho para dois recém-chegados apoiadores do republicano à manifestação em Washington D.C., capital americana.

Um odor de maconha se espalhava em determinados pontos da multidão, enquanto ambulantes ofereciam todo o tipo de camisetas com rostos de Trump e xingamentos a Biden ao público, entretido em selfies e transmissões online. Música country era tocada por um trio elétrico pintado em preto no qual se lia: "silent majority", ou maioria silenciosa, expressão adotada por Trump para qualificar seu eleitorado.

O tom de festival musical, no entanto, encobria uma tensão latente ao longo das pouco mais de quatro horas em que a multidão acompanhou sucessivos discursos políticos que versavam, sem provas, sobre como seu voto havia sido roubado em 2020. Surgiam tacos de beisebol, barras de ferro, toras de bambu nas mãos de apoiadores, que também se paramentavam com capacetes. A agitação já era grande quando a principal atração do dia subiu ao palco.

"Agora cabe ao Congresso enfrentar esse ataque flagrante à nossa democracia. E por isso, nós vamos caminhar pra lá e eu estarei com vocês", disse Donald Trump, antes que seu discurso de mais de uma hora completasse 20 minutos. Suas palavras colocaram milhares de pessoas em marcha para superar os 2,5km que os separavam do prédio do Capitólio, sede do Congresso americano.

O movimento, no entanto, não pararia diante das grades que isolavam o prédio. Dentro do Congresso, o senador e líder republicano Mitch McConnell, segunda mais poderosa figura do partido, deixou claro que eram vãs as ilusões daqueles que cruzaram centenas de quilômetros para estar ali: nenhum resultado eleitoral seria revertido naquela tarde.

"Nada diante de nós prova que houve, em qualquer lugar, ilegalidade próxima à escala necessária para ter definido a eleição. Nem pode a dúvida pública por si só justificar uma ruptura radical quando a própria dúvida foi incitada sem qualquer evidência", disse McConnell.

Em um ato cujo único precedente histórico foi um ataque dos britânicos em 1814, a multidão de americanos partiu para uma violenta invasão do prédio do Congresso, que resultou em quatro mortes (cujas circunstâncias ainda não foram esclarecidas), dezenas de feridos, janelas e gabinetes parlamentares depredados, na interrupção da certificação do presidente eleito Joe Biden (que seria retomada horas depois) e na evacuação dos parlamentares da área.

À parte o caos e a violência pública, políticos e estudiosos têm argumentado que o movimento foi um golpe fracassado à democracia americana. Em entrevista à BBC News Mundo, serviço da BBC em espanhol, o professor da Universidade Harvard Steven Levitsky, coautor do livro Como as Democracias Morrem, afirmou que as cenas expressam "tentativa de autogolpe" após "quatro anos de descrédito e deslegitimação da democracia" por parte do Partido Republicano e de Trump. Segundo ele, o golpe só não teve sucesso porque não teve apoio dos militares.

'Trump ou tirania'



"Estou muito empolgada de estar aqui porque essa é a nossa última oportunidade de salvar nossa República", afirmou Heather, uma artista de 56 anos de Connecticut, que se recusou a dizer seu sobrenome à reportagem da BBC News Brasil. Heather era uma das milhares de pessoas no protesto que acabou naquilo que McConnell qualificou como "uma insurreição fracassada".

Em trajes militares e com um café nas mãos, ela acreditava que a vitória do democrata Joe Biden, obtida pelo voto popular em novembro e confirmada em dezembro pelo Colégio Eleitoral, poderia ser alterada pela objeção levantada por parlamentares republicanos sob o comando de Trump.

Embora a Constituição americana permita objeções aos votos, a única chance de o movimento impedir a posse de um presidente eleito é se a maioria dos parlamentares, tanto na Câmara quanto no Senado, votarem pela ilegitimidade do pleito, algo que jamais aconteceu em 245 anos de democracia nos EUA e que, de antemão, já se sabia que não aconteceria agora.

Mas, depois de perder mais de 50 ações judiciais em oito Estados e na Suprema Corte nos quais tentava reverter a derrota eleitoral, Trump passou a investir na manobra legislativa como uma tábua de salvação e colocou pressão não apenas nos parlamentares do partido como no vice-presidente do Senado, responsável por conduzir a cerimônia que declararia Biden vencedor. Como resultado, convenceu seus apoiadores da viabilidade da ideia.

Confrontada com a probabilidade de que nada alteraria a vitória do democrata, Heather foi direta: "Biden não será um presidente legítimo, não importa o que aconteça. Eles podem tentar chamá-lo disso, mas essa não é a verdade e nós vamos fazer tudo o que pudermos para que ele nunca seja legitimado."

De acordo com uma pesquisa divulgada há 20 dias pelo Instituto YouGov, 38% dos americanos partilham do mesmo sentimento de Heather e não consideram Biden como o justo vencedor da disputa presidencial. Entre os apoiadores de Trump, esse percentual ultrapassa os 80%.

"Trump ou tirania", dizia o cartaz carregado pelo empreiteiro Joe Shields, de 45 anos. Visivelmente cansado de dirigir por oito horas desde seu Estado, o Kentucky, até a capital federal, Shields era categórico. "Eles terão arruinado nossa democracia se o Congresso não mudar esse resultado".

Shields e a mulher, Donna, planejavam passar o dia inteiro diante do Congresso. O casal dizia que o presidente foi capaz de melhorar a situação econômica dos americanos. Enquanto falava com a BBC News Brasil, ele tentava comprar uma camiseta de Trump. Diante da recusa de seu cartão de crédito, não se abalou: "tudo bem, não está tão frio assim", afirmou. A sensação térmica em Washington D.C. naquele momento era de apenas 2ºC.

'Talvez tenhamos que enfrentar
uma nova guerra louca entre nós'



No palco do comício, políticos aliados a Trump reafirmavam à multidão que ou a vitória chegaria com a ajuda dos congressistas, ou seria o momento de elaborar uma nova lista de inimigos. "Hoje é o dia em que os patriotas americanos começam a anotar nomes e detoná-los", afirmou o deputado republicano Mo Brooks, o primeiro a oferecer uma objeção à vitória de Biden, sobre os colegas que não queriam embarcar na manobra política.

"Essa é a mensagem: melhor esses caras (congressistas) lutarem por Trump porque se não, adivinha só: eu vou estar no quintal deles em alguns meses", afirmou o filho do presidente Donald Trump Jr., empolgando a massa. "Se você quiser ser um zero à esquerda e não um herói, nós vamos perseguir você e vamos nos divertir fazendo isso", completou Jr.

A mensagem ecoou no empresário Chad Kulchesky, de 32 anos, do Estado de Delaware. Ele segurava orgulhosamente uma bandeira de Trump estilizado como o personagem de filme de ação Rambo, vivido pelo ator Sylvester Stallone, porque é "assim que o vemos, um guerreiro do povo americano".

"Eu acredito que será preciso muita coragem para fazer o que precisa ser feito, mas eu sinto que existe uma pequena chance e espero que eles (Congresso) façam, assim nós não teremos que fazer. Porque nós não vamos ficar aqui parados esperando esse país virar socialista, com eleições manipuladas, está todo mundo no limite com isso", disse Kulchesky.

Entre as propostas defendidas por ele estava a possibilidade de "criar um novo partido", já que não se sentia mais representado pelos republicanos. Esse é um desejo comum aos apoiadores do atual presidente, que muitas vezes se identificam como independentes ou conservadores, e não como republicanos.

As ações de Trump nos últimos dias ajudaram a aprofundar esse fosso entre seus apoiadores e o partido ao qual o presidente é filiado. Um dos aspectos mais evidentes disso foi a pressão feita por Trump para que seu vice, Mike Pence, alterasse unilateralmente o resultado do Colégio Eleitoral caso as objeções fossem barradas como o esperado. Como presidente do Senado, Pence teria a função cerimonial de anunciar o vencedor.

Via Twitter, Trump afirmou: "Mike Pence não tem coragem para fazer o que é preciso para proteger o nosso país". Em seu discurso, ele foi mais longe e disse ao público nesta quarta que era preciso se "livrar de republicanos fracos". Citou a deputada Liz Cheney, que se opôs à sua manobra, como um exemplo de maus políticos.

"Nós tivemos que passar por isso para ser América, talvez nós tenhamos que encarar uma nova guerra louca entre nós mesmos para acertar as coisas. Não é a primeira vez, nós tivemos guerra antes por menos", conjecturava Chad, menos de duas horas antes da invasão do Capitólio.

Parstin Burton, de 60 anos, foi ainda mais explícito. Questionado sobre o risco de violência, ele respondeu: "Eu estou preparado" e apontou para uma barra de ferro na qual tremulava uma bandeira de Trump. "E tenho outras coisas também", completou, sugerindo que portava uma arma de fogo que não mostrou à reportagem.

Indagada sobre porque se dispunha ao risco de uma manifestação desse tipo, a empresária Stephanie, do Michigan, que se recusou a revelar seu sobrenome por temor de prejudicar seus negócios, afirmou temer que, uma vez no poder, os democratas pudessem querer enviar trumpistas como ela para campos de reeducação forçada, uma ideia jamais aventada publicamente pelo partido. Stephanie disse que o suposto plano seria de autoria da deputada Alexandria Ocasio-Cortez, frequentemente mencionada em teorias da conspiração, e admitiu ter lido sobre isso no que chamou de "deep web".

Apenas alguns instantes antes da invasão do Congresso, a poucos metros da movimentação, um homem de meia-idade da Geórgia, que se recusou a dar seu nome, se aproximou da reportagem para citar uma frase de um dos mais importantes fundadores dos Estados Unidos, Thomas Jefferson: "A árvore da liberdade deve ser renovada de vez em quando com o sangue de patriotas e tiranos".

Ele se mostrava decepcionado com a derrota dos senadores republicanos um dia antes, em seu Estado, o que daria aos democratas controle sobre o Senado, além da Câmara e da Presidência, uma conjunção inédita para o partido em dez anos. Questionado sobre se a política não poderia encontrar formas diplomáticas de resolver o impasse político do país, vaticinou: "Às vezes o banho de sangue é inevitável", e seguiu se aproximando do Capitólio, que seria dominado por centenas de manifestantes em poucos minutos.

Bombas caseiras e selfies com policiais


Do lado de fora do prédio, nas escadarias e janelas, bandeiras da campanha foram penduradas, como se um território tivesse sido conquistado. Vídeos da ação mostram que os invasores enfrentaram pouca ou nenhuma resistência das forças de segurança do Capitólio e a ação da polícia está sob escrutínio para saber se houve leniência com os trumpistas e explicar porque a defesa do prédio parecia tão precária considerando-se que o evento era previsto há dias.

Um vídeo de um policial tirando uma selfie com manifestantes dentro do Capitólio e imagens dos trumpistas deixando o prédio sem serem presos ou questionados viralizaram na internet alimentaram as críticas.

Do lado de dentro, as cenas que se seguiram confirmaram as piores previsões dos apoiadores de Trump. Ao menos uma mulher civil não oficialmente identificada foi morta com um tiro no pescoço disparado pela polícia dentro do prédio. Nas imediações, outras três pessoas morreram em condições não esclarecidas. Os policiais localizaram três bombas caseiras e um artefato carregado para lançamento de coquetéis molotov no Congresso.

Manifestantes invadiram galerias e gabinetes, depredaram móveis, acessaram computadores, quebraram janelas. Um dos invasores sentou-se tranquilamente na cadeira da presidente da Câmara e checou a caixa de e-mails dela, deixada aberta na correria da retirada. Apavorados, deputados se jogaram no chão para tentar se proteger de tiros.

"Achei que teríamos que lutar para escapar", afirmou o deputado democrata Jason Crow, ex-combatente do Exército americano no Iraque. Crow ajudou os colegas a fazerem barricadas e se protegerem do gás lacrimogêneo, além de orientá-los a retirar os broches de lapela que os identificavam como parlamentares e poderiam convertê-los em alvos fáceis. Ao menos 14 policiais ficaram feridos e 52 pessoas foram presas.

"O que Trump causou aqui é algo que nunca vimos antes em nossa história. Nenhum presidente jamais deixou de conceder ou concordar em deixar o cargo após a votação do Colégio Eleitoral, e acho que o que estamos vendo hoje é o resultado disso, o resultado de convencer as pessoas de que de alguma forma o Congresso iria anular os resultados desta eleição, os resultados de sugerir que ele não deixaria o cargo. Essas são coisas muito perigosas, e isso fará parte do legado dele. É um momento perigoso para o país", disse a deputada Liz Cheney, mais cedo atacada pelo presidente, à rede NBC News.

De acordo com o jornal The New York Times e as redes CNN e CBS, o próprio gabinete de Trump e congressistas republicanos cogitam a possibilidade de invocar a emenda 25 da Constituição, que estabelece condições para que um governante seja retirado do cargo em caso de insuficiência para o posto, para abreviar o já curto período do mandatário na Casa Branca. A justificativa para a medida seria a inicial recusa de Trump de convocar a Guarda Nacional para reprimir a invasão do Capitólio. Coube ao vice Mike Pence, junto com a presidente da Câmara Nancy Pelosi determinar a ação das forças de segurança na cidade.

Horas após a invasão, o presidente falhou em condenar os atos, gravou um vídeo em que dizia aos manifestantes que os "amava" e postou uma mensagem em sua conta de Twitter em que dizia: "Isso é o que acontece quando a sagrada e acachapante vitória eleitora é tirada viciosamente e sem cerimônia de patriotas que têm sido tratados tão mal e injustamente por tanto tempo. Vão para casa em paz. Lembrem deste dia para sempre". As postagens foram retirada do ar por violar as políticas de não incitação à violência da plataforma e Trump teve suas contas de Twitter, Facebook e Instagram suspensas por até 24 horas.


O clima de medo se espalhou pela cidade. A prefeitura impôs toque de recolher de 12 horas a partir das seis da tarde e as escolas avisaram aos pais que buscassem imediatamente seus filhos por falta de segurança na cidade. Assessor de segurança do Pentágono, o vizinho da repórter da BBC ligou no início da tarde sugerindo que, se ainda estivesse na área do Congresso, abandonasse o local imediatamente. Apenas alguns quarteirões distante do Capitólio, Washington D.C. parecia uma cidade fantasma. A capital americana passará os próximos 15 dias em Estado de Emergência, e o mandato de Trump termina oficialmente em duas semanas.

Da BBC

 

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