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Terça-feira, 20 de Julho de 2021

Nicolelis: fim da pandemia está longe, ao contrário do que dizem os "epidemiologistas de sofá"

Pedro Sibahi/Agência PT
Pedro Sibahi/Agência PT


Por Miguel Nicolelis*, no Correio Braziliense

Em 14 de julho, o Brasil chegou à dantesca marca de 537.693 mortos pela covid-19.

Caminhando a passos largos para superar os Estados Unidos (EUA) e assumir a liderança mundial de mortes, distraído por um sem-número de delírios de seu inominável mandatário, o país quase não se deu conta de uma marca ainda mais aterrorizante.

Segundo o Portal da Transparência do registro civil, o Brasil registrou, até dia 15 de julho, 1.025.155 mortes, considerando-se todas as causas, e atingiu, em pouco mais de seis meses, entre 80% e 85% da média anual de óbitos pré-pandemia (por volta de 1,27 milhão em 2019).

Assim, enquanto a média mensal em 2018 e 2019 ficou em torno de 100 mil mortes/mês, nos dois meses mais mortais de 2021 (março e abril), foram registrados valores 87% e 88% superiores ao patamar pré-pandemia (188.725 mil, em março, e 187.842 em abril).

Apesar de esses números incluírem todas as causas de morte, grande parcela deste monstruoso excedente está relacionada ao colapso hospitalar do primeiro semestre, fenômeno sem precedentes e do qual ainda não nos recuperamos.

A verdade é que nunca se morreu tanto e por tantas causas diferentes no Brasil.

Mortes por falta de leitos, mortes por atraso em tratamentos, mortes por adiamento de cirurgias, mortes por falta de medicamentos e, possivelmente, mortes decorrentes do vergonhoso fato de que mais da metade da população se encontra em estado de insegurança alimentar, elemento determinante no surgimento de outras doenças infecciosas ou no agravamento de doenças crônicas.

Somem-se ainda as mortes por uso de medicamentos inapropriados ou por infecções resistentes a antibióticos, usados erroneamente para prevenir o coronavírus.

Não é à toa, portanto, que, ao longo do semestre mais mortífero da nossa história, a imagem mais associada ao país pela imprensa mundial tenha sido a de covas rasas sendo abertas nos grandes cemitérios.

Em meio a este dilúvio de mortes, ouço, por todos os lados, que a pandemia acabou no Brasil.

Isso mesmo, meu caro leitor. São infinitas as manifestações de júbilo e regozijo em resposta à queda da média móvel de casos e mortes.

Aparentemente, alguns arautos desta vitória de Pirro - incluindo um famoso comentarista que insiste em não ler os artigos publicados pelo próprio portal - deixaram de reparar que os atuais valores desta média são idênticos (considerando casos novos por dia) ou mesmo superiores (mortes por dia) aos observados em julho de 2020, pico da primeira onda.

Para deleite do tal comentarista, pesquisa publicada pelo portal que veicula seus "ditames epidemiológicos de sofá" revela que a maioria da população acredita que a pandemia esteja sob controle.

Eu ainda não compartilho dessa lufada de otimismo usada por gestores como justificativa para relaxar as poucas medidas de isolamento ainda vigentes.

"É hora de voltar à vida normal", propagam esses governantes ansiosos por satisfazer os lobbies econômicos. Mas em que, concretamente, eu baseio minha cautela? A resposta tem nome e sobrenome: variante Delta!

A mesma que surgiu na Índia e causou uma tragédia ímpar.

Hoje, presente em mais de 100 países, ela é responsável pelo crescimento de casos no Reino Unido, Holanda, Estados Unidos e mesmo em países que se deram muito bem nas primeiras duas ondas, como Vietnã e Indonésia.

No caso de Reino Unido e EUA, o crescimento se deu a despeito destes países terem chegado à marca de 50% da população totalmente imunizada.

No Brasil, onde 42% receberam a primeira dose da vacina e apenas cerca de 15% foram imunizados com duas doses, já existem relatos de transmissão comunitária da Delta em vários estados. Registre-se que ela é pelo menos 60% mais transmissível do que as cepas originais que causaram a pandemia.

Dada a baixíssima taxa de sequenciamento genético no Brasil, ninguém sabe como está sendo o espalhamento temporal e espacial da variante.

Muito menos se sabe quem vai ganhar a competição entre as variantes Delta e Gama, que, de Manaus, espalhou-se até virar a variante dominante aqui.

O futuro da pandemia no Brasil vai depender do resultado dessa briga viral e da velocidade com que o país imunizará fração significativa da população.

Dada a escassez de doses e problemas de logística, este último horizonte parece estar distante de nós e, por causa dessas incertezas, eu ainda perco o sono nas madrugadas.

Enquanto o mundo se alarma com o espalhamento explosivo da Delta e tenta mitigá-lo, o Brasil celebra o suposto controle da pandemia.

Nas ondas anteriores, a situação no Reino Unido e nos EUA antecipou o que ocorreria no Brasil. Desta vez não será diferente.

Como diz um meme popular na internet, "todo filme de catástrofe começa com um cientista fazendo o alerta da tragédia que está por vir".

Até agora, a pandemia confirmou que os roteiristas de Hollywood têm mais bom senso que a maioria dos nossos epidemiologistas de sofá.

Portanto, seria de bom tom apostar na dúvida baseada em dados concretos do que se fiar na certeza de incautos de ocasião, que não conseguem ouvir nada mais do que o som da própria voz.

* Miguel Nicolelis é médico e neurocientista

 

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